A situação atual e os desafios para educação dos povos indígenas na América Latina( 5 )118diferentes cultivares da mandioca, aumentando a sua diversificação e promovendo o enriquecimento das mesmas através de melhoramentos genéticos em diversas espécies.Várias outras inovações na área da medicina também podem ser creditadas em sua origem aos povos indígenas da América Latina. Por exemplo, muito antes da sintetização da aspirina pela medicina moderna, a sua substância ativa, que é extraída da casca do salgueiro, já era utilizada pelos índios latino-americanos para o tratamento de diversos tipos de dores. Os índios também já conheciam e usavam em seus tratamentos medicinais várias substâncias hoje empregadas pela medicina moderna no tratamento do câncer, de glaucoma, de insuficiência cardíaca, em anestesias etc.O mesmo acontece no tratamento da malária. Kffuri et. al. (2016) documentaram o uso de 46 espécies de plantas usadas por povos indígenas do alto rio Negro, no Amazonas, das quais apenas 18 já tinham sido estudadas por suas propriedades antimaláricas; sendo que 26 delas eram totalmente desconhecidas da ciência moderna. Em entrevistas com várias comunidades indígenas locais, eles catalogaram o uso dessas plantas no tratamento da malária assim como as suas formas de preparo e suas posologias.Como se pode imaginar, esses conhecimentos têm relevância não somente cultural, mas também social e econômica. Uma evidência clara da relevância econômica dos conhecimentos indígenas é o contínuo aumento da atividade de biopirataria em terras indígenas, praticadas por grandes empresas multinacionais, cientistas e comerciantes do mundo inteiro que reconhecem as riquezas incalculáveis que constituem as culturas indígenas em relação aos seus recursos naturais.A noção equivocada de que os índios possuem culturas atrasadas também tem relevância para a questão das políticas educativas adotadas no Brasil. Considerá-los como atrasados é considerar que eles não têm capacidade de contribuir para a criação e implementação de projetos educativos a serem adotados no país. Essa falta de autonomia e de participação dos povos indígenas nas deliberações e decisões sobre as políticas educativas é um dos grandes impedimentos para a efetivação de uma educação escolar indígena que atenda às suas necessidades específicas e que realmente promova inclusão social.Culturas congeladasA terceira ideia equivocada que ainda persiste entre a maioria dos brasileiros é a de que as culturas indígenas são ou que devam ser congeladas no tempo. Isto é, não se permite ao índio aquilo que é tido como direito inerente a qualquer outro povo que entra em contato e interage com culturas diferentes: o direito de aprender, de mudar, de evoluir decidindo por si mesmos quais aspectos da outra cultura querem incorporar ou não em sua própria.Parece existir uma crença arraigada na sociedade brasileira de que o índio perde sua identidade indígena caso ele não se enquadre no estereótipo indígena comumente aceito, isto é, o índio nu ou de tanga, no meio da floresta e de arco e flecha na mão. Para exemplificar essa crença, Freire (2000) cita o caso do ex-governador do estado do Amazonas, Gilberto Mestrinho que para impedir a demarcação das terras indígenas no estado, argumentou que os índios a serem beneficiados não seriam mais índios, pois já se vestiam com calça e camisa, usavam óculos e relógios e já falavam o português.É importante que a sociedade brasileira se dê conta de que assim como o povo japonês concilia suas antigas tradições às conveniências da tecnologia moderna e evolui sem perder sua identidade; da mesma forma como os judeus conservam a cultura judia mesmo vivendo em diversos países pelo mundo e falando diversas línguas diferentes; assim como as culturas modernas em todo o mundo podem se adaptar à crescente globalização sem perderem suas identidades culturais, também deve ser concedido aos índios o mesmo direito de mudar, de evoluir e de tomar decisões para o futuro de seus povos.Freire (2000) enfatiza ainda que a mudança não é algo necessariamente negativo para uma cultura. Não é ruim que as elas mudem, o ruim é quando a mudança é imposta, sem deixar margem para a escolha. Ao não permitirmos a participação dos povos indígenas nas deliberações e decisões sobre as políticas educativas a serem adotadas no país, estamos impondo mudanças às culturas indígenas de forma unilateral sem lhes dar liberdade de escolha.Educação indígena x Educação escolar indígena no BrasilO termo “educação indígena” refere-se aos processos próprios de produção e transmissão dos conhecimentos que esses povos construíram historicamente e que são mantidos através de seus costumes e de suas tradições. Na maioria das sociedades indígenas, esses processos educativos são intrinsicamente contextualizados e são transmitidos oralmente ou através de exemplos concretos de geração em geração. Isto é, as situações de transmissão de conhecimento não dependem de espaços e ocasiões predeterminadas de ensino, podem ocorrer a qualquer hora e em qualquer lugar e são de responsabilidade comum. Essa característica da educação indígena brasileira é bem expressa por Freire (2004, p. 15):
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