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( 4 )119Segundo Freire (2000), existem algumas ideias equivocadas a respeito da questão indígena que ainda continuam presentes no pensamento da maioria dos brasileiros. Ele argui que discutir estes equívocos é essencial para a compreensão e aceitação das diversas culturas indígenas que existem no país.A discussão dessas questões também tem importância para a educação escolar indígena no país. A qualidade da educação escolar indígena que é oferecida no Brasil, é diretamente influenciada por essas crenças sociais a respeito dos índios, pois elas são refletidas nas políticas e projetos educacionais que são propostos no país. Avaliar as implicações socias e educacionais que estes equívocos podem ter implica em fazer indagações sobre a sociedade em que vivemos e sobre nossas próprias crenças a respeito do índio e da relação que mantemos com eles.O índio genéricoA primeira dessas ideias errôneas se refere a noção de que os índios são todos iguais, com culturas, línguas, sociedades e crenças semelhantes. Observe que o uso da denominação “índio” e a adoção de uma supraidentidade “indígena” não traz consigo necessariamente a eliminação das diferentes realidades étnicas dos povos autóctones, assim como a supraidentidade “europeia” não elimina as identidades sociais “portuguesa”, “francesa”, “alemã” etc. Embora os povos indígenas tenham optado pela adoção de uma denominação única, a de “índio”, como forma de unir, articular, visibilizar e fortalecer os povos autóctones, ironicamente o que acontece em realidade é que, muitas vezes, ao fazer tal generalização, a sociedade moderna também extirpa do índio sua identidade cultural única.O uso dessa denominação geral acompanhada da negação das identidades culturais indígenas é um fenômeno extremamente preconceituoso e que faz parte de uma visão etnocêntrica do mundo que apenas diminui a herança cultural das sociedades latino-americanas modernas. É importante que nos demos conta dessa noção equivocada e preconceituosa que ainda persiste e que as diversas identidades culturais indígenas sejam reconhecidas e respeitadas. Além disso, é necessário que as características dos diversos povos indígenas assim como as necessidades específicas que surgem a partir dessas diferenças também sejam observadas.As implicações dessa noção equivocada a respeito dos índios não são somente de cunho social, elas também afetam as políticas educativas adotadas no país. O não reconhecimento da diversidade indígena é apenas um dos motivos pelos quais o direito a uma educação escolar diferenciada, intercultural, específica e multilíngue consagrado aos povos indígenas na legislação brasileira não tem sido plenamente garantido nas formas como se estruturaram e organizaram as políticas nessa área. Não é possível implementar um sistema educacional que almeje ser diferenciado, intercultural e que atenda às necessidades específicas de diversos povos indígenas caso os legisladores e educadores que participam na criação desse sistema tenham tão arraigadas em suas crenças essa noção equivocada sobre a população indígena do país.Culturas atrasadasFreire (2000) também chama a atenção para o fato de que a sociedade moderna ainda considera os conhecimentos indígenas assim como vários aspectos das suas culturas (e.g., organização sócio-política, religião, língua, literatura, ciências etc.) como atrasados e primitivos. Essa noção ainda persiste basicamente por ignorância dos fatos e pela falta de motivação para conhecê-los. Também é possível que provenha de um sentimento de superioridade que se criou historicamente na sociedade moderna brasileira em relação aos índios.Os povos indígenas de todo o continente latino-americano sempre produziram expressões artísticas e religiosas extremamente refinadas assim como conhecimentos sofisticados e inovadores em diversas áreas do saber.Algumas instituições como o Museu Emílio Goeldi (reconhecido mundialmente como uma das importantes instituições de investigação científica sobre a Amazônia brasileira) tentam combater essa ignorância promovendo pesquisas pioneiras e estudos científicos dos sistemas naturais e culturais da região amazônica. Freire (2000) menciona que em uma exposição organizada pelo museu sobre a ciência dos índios Kayapó, foi documentado o conhecimento sofisticado que esse povo produziu acerca de plantas medicinais, agricultura, classificação e uso do solo, sistema de reciclagem de nutrientes, métodos de reflorestamento, pesticidas e fertilizantes naturais, comportamento animal, melhoramento genético de plantas cultivadas e semidomesticadas, manejo da pesca e da vida selvagem e até mesmo de astronomia.Em se tratando de experimentação genética, não somente os Kayapó já a realizaram. De fato, o grande número de cultivares de plantas preservados por diversos povos indígenas da Amazônia chama a atenção de pesquisadores de todo o mundo há mais de 40 anos (Kerr & Clement, 1980). Segundo Chernela (1986), os índios Tukano, que vivem na região do rio Uaupés no estado do Amazonas, criaram cerca de 137

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