A situação atual e os desafios para educação dos povos indígenas na América Latina( 3 )120dos países. No relatório América Latina Indígena no século XXI, a entidade ressaltou que embora os indígenas representam cerca de 8% da população total do continente, eles constituem 14% dos cidadãos que vivem na pobreza, e não menos do que 17% das pessoas em situação de pobreza extrema.Além disso, o estudo também constatou que 49% de toda a população indígena do continente vive, em realidade, em áreas urbanas sendo que a grande maioria está relegada às favelas suburbanas onde vive em estado de extrema pobreza. Essa é uma triste realidade que ainda pode ser observada por todo o continente. Uma análise dos dados do estudo mostra que por exemplo, no Peru, a porcentagem de pessoas indígenas que vivem em favelas é quase o dobro da proporção de habitantes urbanos não-indígenas. No Equador, a probabilidade de uma família ser pobre aumenta em 13% se o chefe da família pertencer a um grupo indígena, independentemente do nível de escolaridade, gênero, localização urbana ou rural e número de dependentes. Na Bolívia e México, a probabilidade é 11% e 9% maior, respectivamente. Do mesmo modo, apesar de uma expansão geral de serviços básicos, o acesso dos povos indígenas a saneamento e eletricidade é 18% e 15% menor do que o dos outros latino-americanos.Em relação a empregos, em países com grandes populações indígenas urbanas, como Peru, Equador, Bolívia e México, a porcentagem de indígenas que ocupam empregos de alta qualificação e estáveis é duas a três vezes menor que a de não-indígenas. Enquanto que no Equador e na Guatemala, por exemplo, a probabilidade de trabalhar no setor informal aumenta em 12% e 8%, respectivamente, se uma pessoa pertence a um grupo indígena. Uma consequência disso é que os trabalhadores indígenas têm menos probabilidade de receber benefícios como previdência social, seguro de saúde, fundos de aposentadoria e outras compensações legais do que os trabalhadores não-indígenas.No Brasil, a situação socioeconômica da população indígena em geral é bem similar a do resto da América Latina. Segundo os dados censitários do Brasil de 2010, os homens indígenas brasileiros ganham em média 39% menos que os não-indígenas, enquanto as mulheres indígenas ganham quase 58% menos que as não-indígenas. Nas áreas rurais, essa diferença é ainda maior.As diferenças socioeconômicas entre as populações indígenas e não-indígenas na região têm influências significativas não somente nos vários aspectos das vidas cotidianas dos povos indígenas, mas também em suas expectativas para o futuro. Por exemplo, quando comparados com pessoas não-indígenas, os indígenas, em média, têm menores expectativas para seus filhos, refletindo seu pessimismo sobre possíveis oportunidades de mobilidade social dentro da sociedade atual. Desta forma, enquanto os não-indígenas tem expectativas de que seus filhos estejam entre os 50% com melhor situação econômica, os indígenas, apesar de acharem que seus filhos estarão economicamente melhor do eles ou do que seus pais, eles ainda acham que seus filhos estarão entre os 50% com pior situação econômica (Banco Mundial, 2015).A exclusão social baseada na etnia, portanto, pode levar a um sentimento de impotência por entre dos indivíduos discriminados diminuindo suas expectativas sociais assim como pode levar também à difusão de ideias equivocadas por entre os indivíduos que discriminam, fortalecendo assim o ciclo vicioso de desinformação e discriminação. O crescimento econômico por si só não resolve a discriminação, tendo em vista que se encontra embutida nas atitudes e nas crenças que permeiam a implementação das políticas sociais da região. Nesse sentido, parece ser útil e necessário se fazer uma análise da visão que se tem dos índios assim como das ideias que são geralmente aceitas nas sociedades modernas a respeito das populações indígenas. Como foi mencionado anteriormente, na fase inicial deste estudo, o autor se concentrará nos povos indígenas que habitam o território brasileiro. Portanto, o foco desta análise será nas ideias e crenças observadas na sociedade brasileira.Ideais equivocadas sobre os índios e suas influências na educação dos povos indígenasPara se entender a relação que os brasileiros têm com os povos indígenas que habitam em território nacional é necessária uma análise detalhada dos complexos processos históricos e socioculturais que permeiam essa relação.Historicamente, a imagem que os brasileiros têm dos povos indígenas foi herdada da visão etnocêntrica europeia e está baseada em um pensamento evolucionista da história e das culturas. Consequentemente, é comum que os povos indígenas sejam vistos com inferioridade pela sociedade brasileira, que sempre refletiu os valores morais e sociais da elite de cultura predominantemente europeia do país. Ao longo do tempo, essa percepção embasou e deu suporte ideológico aos diferentes processos de submissão e segregação social aos quais os índios foram submetidos.Essa visão estereotipada das culturas indígenas que é tão difundida na sociedade e que ainda hoje pode ser observada foi determinante em estabelecer práticas discriminatórias persistentes e que implicaram a desapropriação sistemática de territórios indígenas, o denegrimento de suas culturas e a difusão de ideias equivocadas sobre esses povos.
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