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A situação atual e os desafios para educação dos povos indígenas na América Latina( 9 )114construído pela própria pessoa baseada em suas próprias experiências empíricas. A diferença nessa crença epistemológica, que pode afetar a forma como os povos indígenas percebem e o seu nível de receptividade à educação escolar formal por exemplo, pode ser observada entre os povos Guarani Mbyá e os Pirarrãs. Por um lado, se encontram os índios Guarani Mbyá, que são chamados de “teólogos da América” por serem extremamente religiosos. A religião é um dos mais importantes fatores de identidade para os Guarani Mbyá e está presente em todos os momentos do seu cotidiano, penetrando nas diversas esferas da vida como por exemplo na economia, política, educação etc. Em suas aldeias no Rio de Janeiro, eles realizam várias cerimônias religiosas durante todas as 365 noites do ano nas quais quase todos os moradores da aldeia participam. Além disso, a sua estrutura social é hierárquica e bem organizada. Por outro lado, os Pirarrãs não acreditam em nada que eles não possam ver, sentir ou que não possa ser provado, presenciado ou testemunhado por eles mesmos. Por esse motivo a tribo não acredita em espírito supremo ou divindade criadora assim como não tem nenhum tipo de religião. Exemplificando essa crença, o jornalista Cláudio Ângelo (2009) relata que quando o missionário Daniel Everett tentou convertê-los ao cristianismo na década de 1970, eles logo perderam o interesse em Jesus ao saber que Everett nunca havia encontrado Jesus diretamente. Uma outra característica dos Pirarrãs é que não há hierarquia em sua estrutura social. Com base na diferença entre as características dessas culturas e suas crenças epistemológicas, é razoável se esperar que o povo Guarani Mbyá seja bem mais suscetível à educação escolar formal (na qual o conhecimento é transmitido por uma figura de autoridade, o professor) do que o povo Pirarrã, que não tem uma hierarquia social bem definida e tampouco acredita que outras pessoas possam ensinar sobre assuntos abstratos que elas mesmas não tenham experimentado.Um outro exemplo é que enquanto muitos povos indígenas acreditam que suas crianças e jovens devam ser educadas livremente, sem qualquer tipo de restrição social, os índios Yudjá creem que é necessário estabelecer um período de isolamento para a educação dos jovens, Esse período varia de 1,5 a 3 anos para meninas e de 3 a 9 anos para meninos. É durante esse período de isolamento que os jovens aprofundam seus conhecimentos sobre diversas atividades e áreas de atuação social e passam por vários tipos de restrições alimentares, comportamentais e de contato social. Com base nessa diferença de crenças e costumes, é possível que os povos que promovem uma educação mais livre e comunitária sejam mais propensos à atividades educacionais colaborativas do que povos que promovem uma educação mais individualizada e isolada.Para se formular uma educação escolar indígena inclusiva, efetiva e que realmente sirva de vínculo entre as práticas e crenças tradicionais e a necessidade de integração à comunidade global é necessário que alguns pressupostos educacionais que são aceitos inquestionavelmente sejam revistos. Por exemplo, o pressuposto de que educação para a formação do indivíduo se adquire principalmente, se não unicamente, na escola é um pressuposto que se baseia em práticas educacionais dos povos colonizadores europeus, mas que não está de acordo com as práticas de muitos povos indígenas nas quais a família e a comunidade são responsáveis diretos pela educação e formação profissional das crianças. É no contexto do meio familiar e do convívio em sociedade que o índio aprende a viver bem: ser um bom caçador, um exímio curandeiro, um estimado membro da sociedade etc.Ao se criar políticas educacionais e se planejar currículos para a educação escolar indígena, é necessário que o educador leve em conta as diversas crenças epistemológicas e as convicções de cada etnia indígena sobre o que seja educar. Negligenciar as crenças epistemológicas e as formas de construção de conhecimento desses povos é provocar o que Scandiuzzi (2009) denomina de um etnocídio desses povos e diminuir a própria diversidade cultural do país.O próximo passo do presente estudo é avaliar meios pelos quais os modelos de educação tradicional indígenas podem contribuir para a criação de programas de educação escolar indígena mais significativos, que possam reforçar suas práticas socioculturais e que possam abrir caminhos para o acesso a outros conhecimentos universais.ReferênciasÂngelo, C.2009 “Após trabalho com índios no Amazonas, missionário evangélico vira cientista ateu”. Folha de São Paulo. (Consultado em 02 de janeiro de 2020 em https://www1.folha.uol.com.br/ciencia/2009/02/497009-apos-trabalho-com-indios-no-amazonas-missionario-evangelico-vira-cientista-ateu.shtml).Banco Mundial2015 América Latina indígena no século XXI. Banco Mundial, Washington, D.C. Licença: Creative Commons Attribution CC BY 3.0 IGO.

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