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Resumo:
Recebi com muito prazer o honroso convite para apresentar a cultura brasileira
para um público jovem japonês na Universidade de Estudos Estrangeiros
de Kyoto. Aos olhos da cultura japonesa, de história antiga e longa
tradição, a cultura brasileira contrasta por ser recente e
de curta tradição.
Para apresentar uma análise antropológica, vou iniciar
por dois pontos de vista de dois conhecidos antropólogos brasileiros
que se dedicaram à idéia da originalidade da cultura brasileira,
porque , afinal, a história do Brasil começou como uma história
da colonização européia (portuguesa) no novo mundo
e poderia não ser original.
Recentemente, o antropólogo Darcy Ribeiro escreveu, pouco antes
de falecer, O Povo Brasileiro (1996). Ele é conhecido por suas obras
sobre populações indígenas e foi importante político
na decada de 60. Foi então ministro da educação e depois
exilado. No seu último livro, sua mensagem é a de que os brasileiros
devem cada vez mais assumir sua originalidade de uma civilização
mestiça que se quer mais fraterna que o mundo europeu ou norte-americano.
O brasileiro é um povo em fazimento, isto é, aquele que se
faz e busca o ideal da união das diferenças e da igualdade,
embora saiba que não chegou lá. Darcy Ribeiro diz ao leitor
que não é para esquecer que, além de antropólogo,
é político. Darcy Ribeiro reconta a história brasileira
que produziu ao mesmo tempo uma uniformidade do sentido nacional e diferenças
regionais. O autor nos fala de cinco Brasis: 1) o Brasil da cultura sertaneja
do nordeste e do centro, baseada na produção do couro e do
gado; 2) o Brasil da cultura crioula do litoral, baseada nos engenhos de
açúcar; 3) o Brasil da cultura cabocla da Amazônia,
baseada nos seringais e na pesca dos rios; 4) o Brasil caipira do sudeste
e centro, baseado na economia do café e da subsistência e nascida
dos bandeirantes; 5) o Brasil da cultura gaúcha das estâncias
de gado e da cultura agrícola dos imigrantes no sul do país.
Com a modernização, a industrialização e a urbanização,
os cinco brasis mantiveram diferenças que ainda estão nos
seus valores e costumes.
Estes cinco brasis se gestaram dentro de uma contradição
sempre presente entre o valor da união das diferenças e da
capacidade de integração entre raças e culturas e a
desigualdade social. Para Darcy é o povo, isto é, as camadas
populares que postas em situação de desigualdade social e
discriminação racial, foram culturalmente criativas e se miscigenaram
racialmente. Darcy Ribeiro contrasta uma cultura erudita de transplante
com uma cultura popular criativa capaz de mesclar as tradições
mais dispares.
Roberto da Matta , antropólogo brasileiro escreveu seus primeiros
livros sobre culturas indígenas. Mas duas obras podem ser consideradas
como tendo objetivos de decifrar a cultura brasileira: Carnavais, malandros
e herói (1979) e A casa e a rua (1985).
Se para Darcy Ribeiro, o dilema brasileiro é a contradição
entre integração e desigualdade, para Roberto da Matta, a
cultura brasileira deve ser entendida pela sua capacidade de produzir, ao
mesmo tempo, familiaridade e hierarquia. Por familiaridade, entende o sentimento
de proximidade afetiva pelo qual se identificam os brasileiros e por hierarquia,
a distância social pela qual de classificam os brasileiros. Na cultura
brasileira, o código que rege as relações sociais é
o código da noção de pessoa e não do indivíduo.
Roberto da Mata contrasta a cultura brasileira com a norte-americana, onde
a noção de indivíduo impessoal seria a base dos direitos
da cidadania, do mérito e da classificação. Na cultura
brasileira, o que vale é a idéia de que se tem da pessoa,
do seu lugar, dos seus deveres e direitos num mundo relacional e personalizado.
A nação brasileira se vê como uma casa, onde todos são
próximos, todos são solidários mas onde há uma
hierarquia. A casa que existe no imaginário brasileiro como representação
da nação, nasceu da idéia da casa grande do período
colonial onde o senhor era patrão e pai, onde filhos eram senhores
e agregados, onde escravos eram escravos e nem por isso, deixavam de ter
intimidade e afetividade. Assim a cordialidade e a proximidade afetiva convivem
com a distância social.
A importância do futebol, do carnaval se dão por serem lugares
onde todos se imaginam como iguais e próximos e onde a distância
social pode ser invertida e ironizada.
Do meu entender, o código da pessoa e o código do relacional
ganham inteligibilidade, se pensarmos que estes valores de inversão
e de deslocamentos são sustentados numa história onde colonizadores
e colonos, escravos e indígenas ocuparam lugares distintos e opostos
mas que não geraram histórias familiares individuais onde
estas posições claras pudessem permanecer na história
longa. As histórias familiares individuais da miscigenação
fazem do imaginário um desejo sempre ambíguo e se querer colonizador
e se saber descendente de colonizador colono escravo e índio. Assim,
a miscigenação e a criatividade cultural da utopia das inversões
e da utopia da fraternidade amiga parecem apontar para a cultura brasileira
como uma cultura que se quer para um futuro onde as pessoas possam ser próximas
e solidárias. Se a cultura brasileira não é só
cordial, mas é também violenta, se longe está de ser
qualquer exemplo do igualdade, tem a originalidade de se apresentar como
uma utopia de um mundo novo.
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