HOME
GENERALIDADES
PESQUISA
EDUCACAO
DOCENTES
ESTUDANTES
EVENTOS
NOVIDADE
FORUM

Imagem e Cultura'97


Palestra comemorativa do 30º aniversário da fundação do DELB:

Cultura brasileira: raizes e atualidade

Lia Zanotta Machado - Professora Titular de Antropologia da Universidade de Brasília

Neste ano - em 1997 faz 30 anos da fundação do Departamento de Estudos Luso-Brasileiros - DELB - da nossa Universidade.

Para comemorar o 30º aniversário do DELB nossa Universidade convidou uma professora da UnB, a antropóloga Lia Zanotta Machado para apresentar uma palestra comemorativa perante os estudantes do DELB e também perante os cidadãos de Kyoto no anfiteatro nº 741 das 14:00 às 15:30 em 7 de novembro de 1997. Os quase 200 ouvintes ficaram fascinados pela tradução para japonês atingiu também elevado nível.

No dia seguinte, no sábado, a Palestrante visitou Nara e no domingo ficou encantada com o circuito turístico de Kyoto e ficou elucidada a cerca da cultura do Japão. Na segunda feira, 10 de novembro, a convite de um antropólogo japonês, Dr. Hirochika Nakamaki, a professora visitou o Museu Nacional de Etnologia onde havia uma exibição especial sobre o tema Imagens de outras culturas para comemorar 20 anos da inauguração deste museu. A professora trocou impressões com os brasilianistas japoneses presentes.

Resumo:

Recebi com muito prazer o honroso convite para apresentar a cultura brasileira para um público jovem japonês na Universidade de Estudos Estrangeiros de Kyoto. Aos olhos da cultura japonesa, de história antiga e longa tradição, a cultura brasileira contrasta por ser recente e de curta tradição.

Para apresentar uma análise antropológica, vou iniciar por dois pontos de vista de dois conhecidos antropólogos brasileiros que se dedicaram à idéia da originalidade da cultura brasileira, porque , afinal, a história do Brasil começou como uma história da colonização européia (portuguesa) no novo mundo e poderia não ser original.

Recentemente, o antropólogo Darcy Ribeiro escreveu, pouco antes de falecer, O Povo Brasileiro (1996). Ele é conhecido por suas obras sobre populações indígenas e foi importante político na decada de 60. Foi então ministro da educação e depois exilado. No seu último livro, sua mensagem é a de que os brasileiros devem cada vez mais assumir sua originalidade de uma civilização mestiça que se quer mais fraterna que o mundo europeu ou norte-americano. O brasileiro é um povo em fazimento, isto é, aquele que se faz e busca o ideal da união das diferenças e da igualdade, embora saiba que não chegou lá. Darcy Ribeiro diz ao leitor que não é para esquecer que, além de antropólogo, é político. Darcy Ribeiro reconta a história brasileira que produziu ao mesmo tempo uma uniformidade do sentido nacional e diferenças regionais. O autor nos fala de cinco Brasis: 1) o Brasil da cultura sertaneja do nordeste e do centro, baseada na produção do couro e do gado; 2) o Brasil da cultura crioula do litoral, baseada nos engenhos de açúcar; 3) o Brasil da cultura cabocla da Amazônia, baseada nos seringais e na pesca dos rios; 4) o Brasil caipira do sudeste e centro, baseado na economia do café e da subsistência e nascida dos bandeirantes; 5) o Brasil da cultura gaúcha das estâncias de gado e da cultura agrícola dos imigrantes no sul do país. Com a modernização, a industrialização e a urbanização, os cinco brasis mantiveram diferenças que ainda estão nos seus valores e costumes.

Estes cinco brasis se gestaram dentro de uma contradição sempre presente entre o valor da união das diferenças e da capacidade de integração entre raças e culturas e a desigualdade social. Para Darcy é o povo, isto é, as camadas populares que postas em situação de desigualdade social e discriminação racial, foram culturalmente criativas e se miscigenaram racialmente. Darcy Ribeiro contrasta uma cultura erudita de transplante com uma cultura popular criativa capaz de mesclar as tradições mais dispares.

Roberto da Matta , antropólogo brasileiro escreveu seus primeiros livros sobre culturas indígenas. Mas duas obras podem ser consideradas como tendo objetivos de decifrar a cultura brasileira: Carnavais, malandros e herói (1979) e A casa e a rua (1985).

Se para Darcy Ribeiro, o dilema brasileiro é a contradição entre integração e desigualdade, para Roberto da Matta, a cultura brasileira deve ser entendida pela sua capacidade de produzir, ao mesmo tempo, familiaridade e hierarquia. Por familiaridade, entende o sentimento de proximidade afetiva pelo qual se identificam os brasileiros e por hierarquia, a distância social pela qual de classificam os brasileiros. Na cultura brasileira, o código que rege as relações sociais é o código da noção de pessoa e não do indivíduo. Roberto da Mata contrasta a cultura brasileira com a norte-americana, onde a noção de indivíduo impessoal seria a base dos direitos da cidadania, do mérito e da classificação. Na cultura brasileira, o que vale é a idéia de que se tem da pessoa, do seu lugar, dos seus deveres e direitos num mundo relacional e personalizado. A nação brasileira se vê como uma casa, onde todos são próximos, todos são solidários mas onde há uma hierarquia. A casa que existe no imaginário brasileiro como representação da nação, nasceu da idéia da casa grande do período colonial onde o senhor era patrão e pai, onde filhos eram senhores e agregados, onde escravos eram escravos e nem por isso, deixavam de ter intimidade e afetividade. Assim a cordialidade e a proximidade afetiva convivem com a distância social.

A importância do futebol, do carnaval se dão por serem lugares onde todos se imaginam como iguais e próximos e onde a distância social pode ser invertida e ironizada.

Do meu entender, o código da pessoa e o código do relacional ganham inteligibilidade, se pensarmos que estes valores de inversão e de deslocamentos são sustentados numa história onde colonizadores e colonos, escravos e indígenas ocuparam lugares distintos e opostos mas que não geraram histórias familiares individuais onde estas posições claras pudessem permanecer na história longa. As histórias familiares individuais da miscigenação fazem do imaginário um desejo sempre ambíguo e se querer colonizador e se saber descendente de colonizador colono escravo e índio. Assim, a miscigenação e a criatividade cultural da utopia das inversões e da utopia da fraternidade amiga parecem apontar para a cultura brasileira como uma cultura que se quer para um futuro onde as pessoas possam ser próximas e solidárias. Se a cultura brasileira não é só cordial, mas é também violenta, se longe está de ser qualquer exemplo do igualdade, tem a originalidade de se apresentar como uma utopia de um mundo novo.